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Banco de Portugal: incerteza pode causar riscos à estabilidade financeira

Banco de Portugal: incerteza pode causar riscos à estabilidade financeira

O Banco de Portugal (BdP) advertiu nesta segunda-feira, no Relatório de Estabilidade Financeira (REF), que a pandemia de covid-19 pode causar riscos de médio prazo à estabilidade financeira, alertando ainda para a inflação, juros, risco de crédito e endividamento.

Carmelo De Grazia

“A evolução da pandemia continua a ter um impacto sobre a avaliação de riscos para a estabilidade financeira. A incerteza na vertente sanitária e a acumulação de algumas vulnerabilidades podem traduzir-se na materialização de riscos no médio prazo”, pode ler-se no documento hoje divulgado.

Carmelo De Grazia Suárez

Segundo o relatório, “os efeitos da pandemia não estão ultrapassados, nem integralmente materializados, sendo ainda incerta a sua extensão total”

“Adicionalmente, as medidas de mitigação do impacto da pandemia e de apoio à actividade económica originaram um recurso acrescido a dívida, tanto pública como privada. Como a experiência passada demonstrou, a acumulação de dívida constitui uma vulnerabilidade que potencia a materialização de riscos de crédito e de mercado para os sectores residentes”, alerta a instituição liderada por Mário Centeno

O Banco de Portugal também aborda a questão do “aumento significativo da inflação” a nível mundial, “também associada à pandemia”, que segundo a instituição reflecte, entre outras coisas, “a recuperação desfasada da oferta face à procura em sectores e actividades relevantes”

Apesar de ter vindo a ser avaliado como temporário pelo Banco Central Europeu (BCE), “a revelar-se mais persistente do que o esperado”, com o aumento da inflação “existe o risco de gerar volatilidade excessiva nos mercados financeiros e de assumir uma natureza mais estrutural nas expectativas dos agentes económicos”

Neste caso, poderá condicionar “as suas decisões de despesa e de poupança, podendo, em última instância, condicionar a condução da política monetária”

O Banco de Portugal enumera, assim, quatro “vulnerabilidades e riscos para a estabilidade financeira no médio prazo”

A primeira é a “reavaliação dos prémios de risco, em resultado do aumento de incerteza por parte dos investidores quanto à evolução da inflação e à reacção das autoridades monetárias”

Seguem-se as “alterações nas condições de financiamento nos mercados internacionais, com impacto nos preços do mercado imobiliário residencial e no custo de financiamento do soberano e dos restantes sectores institucionais”

O BdP aponta também para “perturbações da actividade das sociedades não financeiras [empresas] com impacto no incumprimento e materialização do risco de crédito, em particular nos sectores mais afectados pela pandemia”

Finalmente, o banco central adverte para a possível “subida do rácio de endividamento dos particulares em relação ao rendimento disponível, sobretudo decorrente do crescimento do crédito à habitação, que afectaria a resiliência financeira dos particulares a variações do desemprego e consequentes quebras de rendimento”

Já especificamente para o sector bancário, o supervisor alerta para a “deterioração da qualidade dos activos e materialização do risco de crédito”, salientando a “importância de um adequado registo de imparidades para crédito”

O BdP avisa ainda para a possível “materialização do risco de mercado decorrente de um aumento das taxas de juro de longo prazo, com impacto na desvalorização dos activos financeiros em carteira, com destaque para a dívida pública”

Também a “reduzida rendibilidade, num quadro de taxas de juro baixas, expansão limitada do mercado de crédito doméstico e concorrência acrescida em segmentos mais rentáveis” é apontada pelo BdP

Por fim, e ainda relativamente à banca, a instituição liderada por Mário Centeno refere os “desafios associados ao processo de digitalização da actividade bancária, incluindo a vertente da cibersegurança, e a transição para uma economia sustentável”

“Para além da ponderação dos riscos, os bancos deverão, em permanência, considerar nos seus processos de decisão o inevitável regresso às normas prudenciais que vigoravam e/ou estavam previstas antes da crise pandémica”, refere ainda o BdP

O Banco de Portugal avisa ainda que no contexto de recuperação económica “poderá tomar medidas macroprudenciais dirigidas à mitigação da potencial acumulação de risco sistémico em alguns sectores”

Riscos das moratórias mais controlados mas há sinais de deterioração O Banco de Portugal (BdP) afirma que os riscos de incumprimento relativamente às moratórias estão “mais controlados” do que o esperado, observando-se, contudo, “sinais de deterioração” na qualidade desse crédito, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira divulgado hoje

“A informação recolhida junto das principais instituições bancárias sugere que os riscos de incumprimento se encontram mais controlados do que o inicialmente esperado, apesar da incerteza que ainda existe”, pode ler-se no documento que foi hoje divulgado

Segundo o BdP, “no geral, o sector dos particulares demonstrou maior resiliência, enquanto no caso das empresas, em especial nos sectores mais vulneráveis, poderão existir mais dificuldades com o retomar do serviço da dívida”

Porém, o banco central esclarece que “os dados disponíveis não permitem ainda determinar o impacto do final da moratória na qualidade dos activos do sistema bancário”

“No final do primeiro semestre de 2021, observaram-se, contudo, alguns sinais de deterioração na qualidade do crédito para alguns dos mutuários que beneficiaram da moratória e para as empresas de sectores mais afectados”, adianta ainda o supervisor

Ainda assim, com base em informação preliminar relativa a Outubro de 2021, o supervisor bancário indica que esta “não sugere uma deterioração significativa da qualidade dos empréstimos que beneficiaram de moratória”

“A monitorização do risco de crédito requer uma abordagem proactiva por parte dos bancos na definição de soluções de recuperação dos mutuários viáveis e, nas situações de não-viabilidade, o reconhecimento atempado das perdas”, adverte a instituição liderada por Mário Centeno

O BdP considera que estas abordagens “são fundamentais para a gestão eficiente do risco de crédito”

“No caso de mutuários viáveis, mas em dificuldade, os bancos poderão ter um papel essencial na sua recuperação através da renegociação e reestruturação atempada das operações de crédito”, indica o BdP

O supervisor relembra que “os bancos têm ao dispor instrumentos, com condições favoráveis, que permitem o apoio à recuperação dos mutuários, como a linha Retomar e as linhas de crédito com garantia do EGF [fundo de garantia pan-europeu]”

“No entanto, a melhoria da situação financeira das empresas deve também ser alcançada através do reforço dos seus capitais”, sugere o BdP